A Igreja no Brasil consagra o mês de agosto à reflexão e oração pelas vocações. Trata-se de um tempo privilegiado para contemplarmos que toda vida é vocação, isto é, um chamado amoroso de Deus. Como nos recorda o Catecismo da Igreja Católica:
“Deus, infinitamente perfeito e bem-aventurado em si mesmo, num desígnio de pura bondade, criou livremente o homem para o fazer participar na sua vida bem-aventurada. (…) Chama-o e ajuda-o a procurá-Lo, a conhecê-Lo e a amá-Lo, com todas as suas forças.” (CIC 1).
Cada vocação é, portanto, uma resposta concreta a esse chamado fundamental ao amor.
A nossa primeira e maior vocação é a vocação à santidade e à vida eterna. Dela decorrem os chamados específicos, os caminhos históricos através dos quais encarnamos o amor de Deus no mundo.
Sacerdócio – O Coração de Jesus no Altar do Mundo:
No primeiro domingo de agosto, celebrando a memória do Santo Cura d’Ars, São João Maria Vianney, a Igreja volta os seus olhos e as suas preces para a vocação aos Ministérios Ordenados (bispos, padres e diáconos).
Nós sacerdotes não somos funcionários do sagrado, nem meros administradores de paróquias. Por graça e mistério, somos homens retirados do meio dos homens e constituídos em favor dos homens nas coisas que dizem respeito a Deus.
Quando o padre sobe ao altar e diz: “Isto é o meu Corpo”, ou quando levanta a mão no confessionário e diz: “Eu te absolvo”, não é a sua humanidade falha que opera, mas o próprio Cristo que age nele (in persona Christi).
O Catecismo ensina: “O sacramento da Ordem configura alguns fiéis a Cristo, pelo caráter indelével, para exercerem, em nome de Cristo, a função de sacerdote, profeta e rei” (CIC, 1581).
Rezar pelos padres é uma necessidade de sobrevivência para a Igreja. Um povo sem sacerdote é um rebanho sem pastor, exposto aos lobos da angústia, do desespero e das falsas ilusões do mundo.
Matrimônio – A Imagem da Família Divina na Terra
No segundo domingo, abrindo a Semana Nacional da Família, celebramos a vocação matrimonial e a paternidade. No plano de Deus, o amor entre um homem e uma mulher não é um mero contrato civil ou uma convenção social; é um Sacramento, uma imagem viva do amor de Cristo pela Sua Igreja.
Em tempos em que o amor se tornou descartável e as relações são superficiais, o casal cristão que diz: “prometo ser-te fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da minha vida” é um compromisso assumido perante Deus.
O Catecismo afirma: “A íntima comunidade da vida e do amor conjugal foi fundada pelo Criador e dotada de leis próprias […]. O próprio Deus é o autor do matrimónio. A vocação para o matrimónio está inscrita na própria natureza do homem e da mulher, tais como saíram das mãos do Criador” (CIC, 1603).
A família cristã é a “Igreja Doméstica”. É nela que a criança deve ouvir falar de Deus pela primeira vez; é no colo dos pais que se aprende a rezar e a ter equilíbrio emocional diante das frustrações da vida. Proteger o matrimônio é salvar a própria sociedade de sua desintegração afetiva.
A Vida Consagrada – Os Sinais do Céu no Meio de Nós
No terceiro domingo, o nosso olhar se volta para os religiosos, religiosas e consagrados.
A vida religiosa é marcada pela profissão dos conselhos evangélicos: pobreza, castidade e obediência. É um testemunho radical de que Deus é o absoluto da vida.
“O estado de vida consagrada manifesta a natureza íntima da vocação cristã e a tensão de toda a Igreja para a união com Cristo” (CIC, 914).
Os religiosos e religiosas são sinais proféticos no mundo. Sua vida aponta para o céu, lembrando-nos de que nossa pátria definitiva não é aqui (cf. Filipenses 3,20).
Os Leigos e Catequistas – Os Pés de Cristo no Meio do Mundo
No quarto domingo, celebramos a vocação dos leigos, de modo especial os catequistas. Os leigos são a imensa maioria do Corpo Místico de Cristo.
A vocação do leigo é ser sal da terra e luz do mundo dentro das realidades onde o bispo e o padre não conseguem entrar.
O leigo se santifica sendo um médico honesto, um professor dedicado, um trabalhador honrado, um político justo. É o leigo quem insere a lógica do Evangelho na economia, na cultura e nas estruturas sociais. E, de modo muito particular, os catequistas são os artesãos da fé, aqueles que doam seu tempo para instruir as crianças, jovens e adultos, tirando as mentes da ignorância espiritual e inserindo-as no mistério de Deus.
O Catecismo define com precisão a identidade laical:
“A vocação própria dos leigos consiste em procurar o Reino de Deus, exercendo funções temporais e ordenando-as segundo Deus. (…) A eles compete, de modo particular, iluminar e ordenar todas as coisas temporais, às quais estão intimamente ligados…” (CIC ( 898)
Por fim, é importante a todos assumir a própria vocação com alegria: Se você é casado, seja um esposo, uma esposa santa. Se você é jovem, estude e trabalhe com os olhos fixos no Senhor. Se você sente que o seu coração queima quando se aproxima do altar, não resista. O Senhor não tira nada; Ele dá tudo!
Que a Virgem Santíssima, que viveu perfeitamente a própria vocação, respondendo com o seu “sim” a Deus, interceda por cada um de nós, por nossas famílias e por nossas vocações.
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